junho 04, 2022

O som dos sentimentos


Talvez por realmente estar no outono, talvez pela relação com a música - que me remete ao sentimento catalisador de algumas das minhas pinturas presentes na GALERIA -, talvez uma mistura dos dois... Não sei, só sei que me vi relendo O som dos sentimentos, conto de Babi Dewet presente no livro Um ano inesquecível.

Ao longo do outono, sem pressa, mas a cada dia mais, acompanhamos a evolução do relacionamento entre Anna Julia e João Paulo. Uma relação totalmente associada à música, esta qual se mostra durante todo o conto como "um retrato do que diz o coração". Anna Julia, com 17 anos, passou por algumas experiências ruins em relacionamentos (se envolveu com um irresponsável emocional e teve alguns exemplos familiares não muito bons) e, entre as possíveis formas de reação a isso, a sua foi ignorar, criar barreiras para os sentimentos, logo, equivalentemente, ela se fecha para a música também. Já João Paulo, 19, é músico, vive do som, se joga nos sentimentos de cabeça, é guiado por eles, e só pensa em se privar disso quando sente que pode magoar o outro, quando sente que seus desejos vêm de um local egoísta.

Então, por tramas do destino, num mesmo período de tempo, eles acabam se esbarrando no mesmo lugar: a estação de metrô Trianon-Masp, no vão do Masp. Um local onde as pessoas estão apenas de passagem, o que já nos diz muito sobre o futuro da relação dos dois: ela é passageira, tem data para acabar. Mas, taí, toda a graça do conto, este qual fala, principalmente, sobre valorizar cada momento da nossa vida, porque são eles, os detalhes do dia a dia, que mais nos marcam. Mesmo que esses momentos sejam curtos, cronologicamente falando, como é o caso do relacionamento dos personagens, eles ficam eternos dentro de nós. É melhor deixar de viver a aventura, ficar com um "e se", do que aproveitar a oportunidade de sentir e aprender com a experiência, apenas porque o tempo é curto? Como alguém que já cometeu esse erro e se arrependeu amargamente, vai por mim, não é melhor não.


Palavras, gestos, pessoas, experiências que nos tirem da nossa zona de conforto são sempre bem-vindas! Estar em contato com nossas próprias emoções, se colocar à prova, abertos a aprender e conhecer coisas novas, entendendo, consequentemente, a nós mesmos, a partir de como reagimos às situações (se gostamos ou não, se machuca ou cura, nossos limites, nossos pontos fortes e fracos...), é uma forma de viver a vida mais plenamente. Porque é como a gente vai se guiando e descobrindo nosso próprio caminho. E assim faz Anna Julia, personagem que mais cresce ao longo do conto. E que desenvolvimento gostoso de acompanhar!

Anna começa a história em uma fase meio confusa, se questionando sobre sua própria vida e se o caminho que estava seguindo era o que realmente queria para si. Então, ela conhece João Paulo, uma pessoa com propósitos já mais bem definidos, e passa a viver um relacionamento recíproco, em que um se preocupa com o outro (ela levando lanches para ele, ele atento ao jeito dela e em não magoá-la), um aprende com o outro (ela mostra a ele que podcasts possuem melodia, ele mostra a ela o quanto a música pode ser um conforto para o coração), em que a conexão ultrapassa a necessidade de estarem juntos fisicamente para acontecer (como quando ela está ouvindo Hey Jude e, ao mesmo tempo, esta é a música que ele decide tocar), até o corpo deles fala sobre a empatia que sentem um pelo outro: "Arregalou os olhos e viu que o garoto fez o mesmo, sem perceber, imitando sua expressão"... A partir dessas trocas entre os dois, Anna Julia vai crescendo, se tornando uma pessoa mais leve e encontrando as respostas para as angústias que sentia no início. Se, antes, possuía várias barreiras criadas ao seu redor, no fim, elas já estão caidinhas no chão.

E é incrível como a música acompanha todo esse processo. Primeiro, ajudando a personagem a admitir para si mesma o quanto, no fundo, se sentia só, ou seja, a encarar sentimentos negativos e expressá-los (ela chega a chorar) ao invés de tentar ignorar. Mas depois, também, a fazendo sorrir, se sentir esperançosa, motivada. "Por algum motivo divertido, o ritmo fez com que ela corresse mais e se sentisse dentro de um filme". À medida que se abria para a música (portanto, para os próprios sentimentos, os aceitando e compreendendo), a personagem se abria igualmente para a vida, criando memórias e valorizando, vendo magia, em cada momento.

O conto nos lembra que, no fim, tudo o que temos é o presente. Claro que dá para pensar no e ajudar o "eu futuro", mas, até para isso, é preciso não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, ou seja, focar no presente hahaha... Logo, o melhor que podemos fazer é entender que a vida é feita de ciclos, que tudo passa, e que está tudo bem em ser assim. O importante é que sejamos inteiros e respeitemos cada camada nossa ("boa" ou "ruim") durante todo esse processo. Pois é isso que faz tudo valer à pena...

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