setembro 05, 2022

Fleabag

Pessoas cometem erros. Pessoas cometem erros o tempo todo. Pessoas também passam por situações ruins sobre as quais não têm controle. A vida é um constante agir e reagir. O livre arbítrio é apenas a escolha de como fazê-los. Em Fleabag (em tradução livre, "saco de pulgas"), após a perda de duas pessoas extremamente importantes em sua vida, a mãe e a melhor amiga, a personagem principal da série, sem nome - o que não é algo que você realmente sente falta ou sequer percebe ao longo da obra -, está tentando seguir em frente. Mas há tantas coisas para as quais precisa olhar, tanto fora, quanto, principalmente, dentro de si mesma para o fazer...

Na primeira temporada, acompanhamos uma trajetória de luto e culpa até o perdão. Somos apresentados a essa mulher constantemente fugindo do momento presente, de encarar suas próprias dores (culpa e tristeza) e, no fundo, de sua solidão. Tudo isso de várias formas, inclusive, através de nós (!), telespectadores. A todo tempo a personagem quebra a quarta parede de forma incrível, com um humor implacável, que nos pega pela identificação com os julgamentos rápidos dela sobre o que se passa em seu entorno, refletidos muitas vezes em uma simples expressão facial que nos diz tudo, ou uma fala pequena, porém, com uma sinceridade estupenda, que traz fácil o riso aos lábios.

Após tantas perdas, a protagonista se encontra em um momento quase entorpecido, apenas levando a vida, desprendida emocionalmente de tudo que consegue se desprender, até (na verdade, especialmente), do que sente, deixando de prezar pelo seu próprio bem-estar, muitas vezes buscando ativamente por situações ruins (como quando diz sim querendo dizer não; ou pede para avisarem ao seu ex que ela está devastada, mesmo não estando; ou vai alfinetar a madrasta sabendo que, muito provavelmente, receberá uma resposta passivo-agressiva que a abalará de volta), seja para se punir de alguma forma, seja mais um jeito (além de nós) de postergar encarar logo aquilo que, no âmago, é o que realmente a incomoda.

Por isso, se envolve em relacionamentos com pessoas com as quais sequer se importa ou gosta de verdade, com as quais seu humor não combina (como aquele que se leva a sério demais, outro que não pega uma piada, ou o que acha assustador algo que, para ela, seria engraçado). São todos relacionamentos superficiais, aos quais ela não permite que se aprofundem (como quando o namorado quer "fazer amor" e ela queria apenas que ele a "fodesse"), mas, contraditoriamente, prende-se. Prende-se às dinâmicas viciosas que criou, à "previsibilidade" deles (entre aspas, já que de previsíveis nada têm, afinal, ela está lidando com outros seres humanos e seres humanos são complexos). Isso, porque a personagem não quer intimidade, pelo contrário, tanto que cenas que deveriam ser íntimas do casal, situações em que ela deveria (ou seria preferível) estar inteiramente presente, a protagonista continua falando conosco e performando para a pessoa. Ela quer apenas uma zona de conforto. Ela quer formas de fugir da constante sensação de que estraga tudo, da solidão que sente, porque:


"A solidão estremece

Àqueles que têm medo

De se olhar no espelho


Emudece a boca

Mas dá alto-falante

Aos pensamentos."


Mas vemos que a personagem não é bem sucedida, não consegue fugir, bom, dela mesma, do que se passa dentro de si (ninguém consegue). Ora, fugir e ignorar não faz com que o problema deixe de existir. E isso se manifesta o tempo todo, seja em lembranças da amiga suscitadas por situações ao seu redor, seja num desabafo quase catártico (contudo, ainda assim, carregado de um tom sarcástico) com um motorista, seja na criação de uma rotina de correr todo dia no cemitério, ou numa confissão momentânea de que só quer chorar o tempo todo... São pequenas coisas que nos dizem muito sobre o real estado da personagem, escondido por debaixo do seu humor.

Acompanhado ao seu caos interno, o externo também não vai nada bem. A relação com a família não é das melhores, a qual envolve um pai péssimo em se comunicar e que nunca toma partido pelas filhas, uma madrasta inconveniente e passivo-agressiva (às vezes, apenas agressiva mesmo) - dois, estes, que nunca hesitam em citar que as características "ruins" dela foram herdadas da falecida mãe -, um cunhado execrável, e, finalmente, salvando a pátria, a irmã Claire, personagem incrível com uma dinâmica sensacional com a protagonista: elas se entendem, se conhecem muito bem, se preocupam uma com a outra, estão sempre se ajudando (seja dando presentes atenciosos, seja roubando estatuetas de volta), mesmo que tenham jeitos completamente diferentes de ser. Entretanto, até elas duas entram em conflito de vez em quando, já que Claire também tem suas próprias questões que acabam afetando a irmã (e vice-versa).

Além disso, como reflexo ainda mais fiel que a família do quanto a protagonista está mal, a sua cafeteria, estabelecimento que cuidava junto com Boo, a melhor amiga, e agora se encontra gerenciando sozinha, não vai nada bem. Está prestes a falir e ela não consegue nem um empréstimo para o pequeno negócio, nem pedir ajuda para a família - talvez por orgulho, uma promessa ou porque sabe que essa é uma trajetória dela e de mais ninguém. A cafeteria funciona como um espelho de quem a administra e, assim como a vida de quem o faz, está indo por água abaixo.

Mas é exatamente aí, no ponto mais baixo, quando chega no fundo do poço, quando todos a estão deixando, quando até as zonas de conforto e dinâmicas viciosas que criou se desfazem, quando os erros do passado batem à porta afetando relações importantes do presente (como a relação de confiança com sua irmã), é nesse momento em que ela se vê obrigada a finalmente encarar o que lhe suscitava tanta culpa e tristeza. E isso ocorre em uma cena maravilhosa, na qual a personagem tenta, inclusive, fugir de nós, os telespectadores! Mas não tem mais para onde correr, sua tentativa é vã e ela não consegue mais selecionar ou esconder o que mostra ou deixa de mostrar para gente. Já não há mais nenhuma forma de fuga que havia criado a qual recorrer, genialmente, nem mesmo a quarta parede. Ali, é apenas ela e ela mesma. Então, nós passamos a entender tudo e, conjuntamente, a personagem encara o que aconteceu. Olha profundamente para o que sente e, enfim, fala sobre isso de forma extremamente sincera. É desse ponto que uma solução aparece, o perdão acontece e uma oportunidade de mudar é agarrada lindamente!

Passamos, assim, para a segunda e última temporada. Mais especificamente 371 dias, 19 horas e 26 minutos depois da primeira hahaha. E, agora, apesar de ainda haver elementos de luto (afinal, luto não é algo que acaba, apenas ameniza), esse seguimento é, como ela mesma diz, "uma história de amor". Aqui, já encontramos a personagem tomando boas atitudes pela sua própria vida: assumindo suas responsabilidades, se exercitando, se alimentando bem, fugindo de relacionamentos supérfluos, cultivando coisas boas para si. Sua vida pessoal, sua relação consigo mesma já melhorou, logo, o que vem a seguir é apenas para acrescentar: a lição agora é sobre o outro.

Depois de uma fase preenchida por tantos relacionamentos vazios e incompatíveis, nossa protagonista tem que reaprender a se entregar, a trocar experiências de forma real e profunda com alguém novamente. E que relação incrível se constrói nessa temporada, desde seu primeiro episódio, que já vem temperado com detalhes simples, mas poderosos, do quanto a conexão entre os personagens é forte (como quando ele pergunta algo a ela, assim que ela cita para nós que ninguém lhe fez pergunta alguma). Pena, somente, que ele é um padre! Hahaha... E, por isso, ela é meio que forçada a adentrar um espaço que vai muito além de paixão e carnalidade num relacionamento amoroso, mas, essencialmente, de amor, de compreensão, de trocas de conhecimento, experiências e ideias... Um espaço responsável por nos fazer mudar por dentro, questionar percepções já tidas e, assim, ampliar nossas visões.

Então eles vão. Vão conversando sobre a Bíblia, sobre celibato, sobre a morte... E é sensacional como os personagens se entendem e se respeitam, como o humor deles se encaixa, como têm um passado de dores parecidas, como se desestabilizam (ativando gatilhos que devem ser trabalhados em cada um) e, ao mesmo tempo, ajudam um ao outro a se estabilizar novamente. É uma espécie de dança, na qual ambos vão achando um compasso que seja bom para os dois. Chegando a um ponto em que (ouso dizer, é uma das sacadas mais geniais dessa série) ele começa a perceber quando ela quebra a quarta parede!!! Porque eles estão em um nível de abertura e interesse pelo outro tão alto, que se tornam capazes de acessar e enxergar até os pontos mais internos e individuais de cada um, além das barreiras. E isso é realizado de forma sensacional! O uso da quarta parede nessa série é, nossa!, só aplausos de mais de um minuto, no mínimo.

Além do relacionamento dela com o padre, também somos agraciados com outras pérolas ao longo dessa temporada, como: uma sessão de terapia; um diálogo maravilhoso sobre ser mulher e sobre a menopausa; a única cena de sexo em que ela finalmente não fala nada com a gente, nem mesmo uma palavra, pelo contrário, até abaixa a câmera, mostrando o quanto está plenamente entregue à relação; a resolução dos conflitos dos/com os personagens secundários; um discurso emocionante sobre o amor; um "vai passar" de cortar o coração; e uma despedida, esta qual é fruto de lições aprendidas, do fim de um ciclo. Porque as "pulgas" com as quais a personagem tinha de lidar, terminaram de ser tratadas e, agora, é hora de uma nova história ser trilhada. E vai ficar tudo bem, porque ela já descobriu o que é melhor para si, e os novos erros que cometer serão por escolha de continuar se desenvolvendo, arriscando e aprendendo, como a trilha sonora (This feeling, do Alabama Shakes) nos deixa bem claro, resumindo toda a jornada da protagonista até ali e fechando a série com chave de ouro.

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Vídeo muito legal, comentando sobre detalhes específicos da edição da série, que complementa alguns pontos que levantei e ainda traz outras visões sobre a obra: https://youtu.be/JAD9hyXAkB0

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